"tu não tem que te entregar", me disseram, e eu ouvi muda, calada. "por que será que não pode?" pensei, mas só quando eu cheguei em casa, enquanto cozinhava. no momento da discussão eu concordei, porque eu já me machuquei muito e aprendi que se eu não tivesse me entregado não teria doído tanto. "mas por que será que não pode?". se eu não tivesse me entregado, não teria gostado, não teria sofrido, não teria amado. não, amado não, porque amar eu só amo agora. antes eu não tinha amado não: achava que amava, era convicta, mas amor não existia ali não. o amor que eu sinto agora é uma coisa bonita, grande de não caber dentro do peito: explode e fica estampado no sorriso bobo que eu abro quando lembro do amado. e se alguém no ônibus viu? deixa que veja e que de cantinho reveja. ninguém sabe o motivo lindo que eu tenho pra me fazer sorrir. e quem foi que disse que a gente se entrega só por amor? as vezes a gente fica tão sozinho que nem se entrega, se joga mesmo. e não precisa ser naquele amor pra casar e ter filhos. poder ser numa relação minimamente estável, aquelas relações que a gente mantem só pra ter alguém em quem pensar antes de dormir. e se joga com tudo, de cabeça, chega a se afundar. e nesse mar de sentimento, de paixão, de certezas e de dúvidas é que é gostoso de ficar. acompanhada: não gosto de me jogar sozinha. acho que ninguém gosta. que graça tem? e é agora que eu começo a entender. as pessoas tentam se proteger umas das outras sem se entregar. cada uma esperando o primeiro movimento da outra. mas esse movimento nem sempre vem. e é nessa espera que os sentimentos vão diminuindo. "tu não tem que te entregar". mas e se eu quiser? e se eu quiser dar o passo?
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